Quando se fala em desigualdade no Brasil, muitos pensam em renda ou acesso a oportunidades. No entanto, um dos aspectos mais gritantes e menos debatidos é quantas famílias brasileiras ainda vivem sem um banheiro.
Pode ser surpreendente, mas mais de 1,2 milhão de famílias não possuem esse item básico em suas casas, o que compromete dignidade, saúde e inclusão social. O problema não se restringe a regiões afastadas ou a extremos de pobreza, mas está espalhado por todo o território, expondo uma face alarmante sobre as condições de moradia e acesso a direitos fundamentais.
Recentemente, um estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) trouxe dados preocupantes ao revelar que cerca de 16,3 milhões de famílias, representando 40,9 milhões de pessoas, vivem em domicílios brasileiros com algum tipo de inadequação habitacional. A falta de banheiro está presente em 3% dessas moradias, afetando gravemente a qualidade de vida dessas pessoas e acentuando as desigualdades já existentes em nosso país.
A fotografia alarmante da moradia no Brasil
Estar sem banheiro em casa não é uma situação isolada. Essa realidade caminha junto de outras deficiências, como ausência de água canalizada, esgoto, energia elétrica e pisos ou paredes inadequados. Muitas vezes, essas problemáticas coexistem, tornando o ambiente doméstico ainda mais insalubre. Segundo a análise do Ipea, o maior problema é a inexistência de alternativa de esgotamento sanitário (afeta 21,8% das famílias cadastradas no CadÚnico). Logo após, em ordem de gravidade, vêm a falta de abastecimento de água por rede pública (17,1%), energia elétrica (7%) e, por fim, o tão negligenciado banheiro (3%).
O perfil dessas famílias escancara outra estatística chocante: 78% dos lares que sofrem com pelo menos uma inadequação são chefiados por mulheres, sendo que três em cada quatro dessas líderes de família são negras. Nos estados mais ricos do país, a precariedade habitacional é ainda mais visível nos lares comandados por mulheres negras, reforçando marcas históricas de exclusão social e econômica.
Consequências para saúde e vida cotidiana
A ausência de um banheiro em casa vai muito além do desconforto prático. Gera problemas sérios de saúde pública, tornando-se um vetor para a proliferação de doenças infecciosas e agravando quadros como tuberculose, que encontram terreno fértil em ambientes úmidos, mal ventilados e com saneamento precário. Para crianças, a falta desse espaço pode significar faltar à escola por causa do preconceito, do bullying e de doenças recorrentes.
Além disso, o banheiro pode servir como um espaço de refúgio para vítimas de violência doméstica. Ter um banheiro privado, com porta e segurança, ganha um valor simbólico e prático, protegendo especialmente mulheres e crianças em situações de vulnerabilidade dentro do próprio lar. São impactos que, muitas vezes, escapam às estatísticas tradicionais, mas que moldam a realidade de milhões de brasileiros.
Políticas públicas e desafios para reverter a exclusão
O Brasil já investe há décadas em políticas habitacionais focadas, sobretudo, na construção de novas moradias. Programas como o Minha Casa, Minha Vida representam avanços, porém, mais de 80% das casas do país foram autoconstruídas, erguidas por famílias à medida que tinham renda e condições. Isso explica a precariedade estrutural que ainda persiste em grande parte das moradias brasileiras.
Recente lançamento do Programa Reforma Casa Brasil promete facilitar crédito para reformas, ampliações e adequações, mas especialistas alertam: sem assistência técnica adequada, as reformas podem agravar o problema ao invés de solucioná-lo. A legislação já garante a todas as famílias com renda de até três salários-mínimos o acesso gratuito à assessoria técnica de arquitetos e engenheiros, visando a correta qualificação dos lares.
O papel das organizações da sociedade civil
A atuação de organizações sociais vem sendo fundamental para superar gargalos do setor público. Segundo levantamento do Ipea e do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU), há 379 organizações da sociedade civil (OSCs) ativas em periferias, áreas urbanas e zonas rurais atuando em projetos participativos de identificação e correção de inadequações habitacionais. Essas entidades ajudam a criar soluções criativas e emergenciais para comunidades historicamente excluídas dos investimentos públicos.
Peso financeiro e a urgência de soluções
De acordo com as projeções do Ipea, seriam necessários mais de R$ 273,6 bilhões para eliminar as principais precariedades das casas brasileiras. Esse valor é equivalente ao que se gastou no primeiro ciclo do Minha Casa, Minha Vida para construir cerca de 5 milhões de residências. O investimento, porém, traz retornos que vão muito além do tijolo e cimento: representa avanço em saúde, educação, redução da violência doméstica e dignidade, beneficiando toda a sociedade.
Onde estão as famílias sem banheiro?
É comum imaginar que a falta de banheiro atinja apenas cidades pequenas e isoladas. No entanto, capitais e grandes regiões metropolitanas concentram boa parte desses lares, especialmente em periferias urbanas e comunidades rurais afastadas. Paradoxalmente, cidades com maior desenvolvimento econômico são, muitas vezes, palco de bolsões de pobreza extrema com moradias inadequadas. Isso demonstra que o acesso a saneamento é reflexo direto da desigualdade estrutural brasileira.

Perguntas Frequentes
- Quantas famílias vivem sem banheiro no Brasil em 2025? Segundo estudo do Ipea, mais de 1,2 milhão de famílias vivem em casas sem banheiro no país.
- Quais são as principais consequências de viver sem banheiro em casa? Problemas de saúde, exclusão social, dificuldades na educação e agravamento da violência doméstica.
- A ausência de banheiro afeta mais alguma parcela da população? Sim, a maioria dos lares afetados é chefiada por mulheres negras, reforçando desigualdade social.
- Quais políticas públicas existem para enfrentar o problema? Programas como o Programa Reforma Casa Brasil e leis que garantem assistência técnica gratuita para famílias de baixa renda.
- Falta de banheiro é mais comum em áreas urbanas ou rurais? Existe em ambas, mas grandes centros urbanos também concentram muitos lares sem banheiro devido à favelização.
- Quanto custa eliminar precariedades habitacionais no Brasil? O Ipea estima custo superior a R$ 273 bilhões para resolver problemas de infraestrutura doméstica.
- Organizações sociais ajudam a resolver o problema? Sim, centenas de OSCs atuam diretamente em comunidades urbanas e rurais promovendo melhorias habitacionais.
- Toda família de baixa renda tem direito a assistência técnica para reforma? Sim, existe legislação que garante suporte gratuito de arquitetos e engenheiros para moradias de interesse social.
- O banheiro pode ajudar em casos de violência doméstica? Sim, muitas vítimas usam o banheiro como último refúgio em situações de risco dentro do próprio lar.
- Como a sociedade pode colaborar para mudar esse quadro? Compartilhando informações, exigindo políticas públicas eficazes e apoiando organizações sociais comprometidas com a moradia digna.















